terça-feira, 18 de maio de 2010

Racismo

Na quarta-feira passada, 12 de maio, meus filhos e sobrinhos foram ao Maracanã assistir à partida do Flamengo contra a Universidad do Chile. Alguns deles pisavam pela primeira vez no Maraca e a alegria era total. No final, o Flamengo acabou perdendo por 3 a 2. Ao regressarem, enquanto os mais velhos foram afogar as mágoas no bar mais próximo, as crianças contavam extasiadas o que sentiram, na verdade elas nem estavam tão tristes com a derrota do time do coração, a satisfação por terem assistido ao jogo era maior.
Entretanto, para embaçar o brilho da noite, um dos meus sobrinhos contou-me que a torcida do Flamengo, irritada com a atuação do Wágner Love, formou um coro chamando-o de macaco. Fiquei irada e envergonhada. Irada porque sei que a maioria das pessoas que ali estavam ofendendo o jogador ou é ou tem parente "macaco", envergonhada porque a gente vive ensinando às crianças que o racismo é uma coisa abominável e, quando ela vai se divertir, ouve um cântico desses, coroado de preconceito.
Quase chorei, não pelo Wágner Love, que, por ter continuado em campo sem reagir, demonstrou um autocontrole que sei que eu não teria. Eu, com certeza, teria mostrado alguns dedos para o Maracanã lotado e convidaria a mãe de cada um para conhecer o macaco depois do jogo. Fiquei muito triste por saber que os filhos do Brasil, que são chamados de macaquitos lá fora, comportam-se da mesma forma com seus irmãos, seus compatriotas, seus semelhantes.
Gostaria de ver qualquer negão na plateia reagir com o fair play do Love.
Resumindo: desestabilizam os jogadores quando eles mais precisam de apoio (ou será que há quem pense que estes estão ali para perder?) depois, querem resultados positivos.
Bem, alguém dirá, os jogadores ganham para isso, têm que estar preparado. Sim, mas antes de tudo, lembremo-nos que eles são seres humanos, portanto sujeitos a todas as idiossincrasias da espécie, não são máquinas, não são robôs, têm o direito a altos e baixos e a reagir mal. Ninguém sabe as cicatrizes que carregam, as dores que ainda sentem na alma quando surge uma situação dessas.
Já faz quase uma semana, porém a minha dor e a minha vergonha ainda não passaram, por isso estou escrevendo, para minimizar o meu sofrimento por saber que o cancro do racismo ainda está ativo, vivo em nossa sociedade, tomando conta do espírito de pessoas de todas as cores.

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