No transcorrer dos anos em que atuei
como professora das séries iniciais do Ensino Fundamental pude observar
mudanças nas concepções didático-pedagógicas do ensino.
Na década de 70, quando comecei a
lecionar em escolas públicas no Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense
(Nilópolis), o ensino predominante pautava-se sobre uma base tradicional, na
qual os alunos tinham que decorar a tabuada, os verbos, os substantivos, os
adjetivos, etc. É claro que para nós, professoras, a situação era confortável:
se o aluno não aprendesse o problema era dele e não nosso, visto que
“ensinávamos”, independente do fato de ter havido ou não aprendizado.
Insatisfeita com o magistério, abandonei-o,
ainda na década de 70, tomando outros rumos profissionais, até me ver de volta
em 2001, quando constatei uma grande mudança nos rumos da educação. Agora, a
prefeitura do Rio e muitas outras, conforme constatei mais tarde, adotara o
ensino através de ciclos de aprendizagem, baseados na idade cronológica do
educando e de acordo com os estágios piagetianos e wallonianos. Os alunos que
não lograssem êxito no processo de alfabetização até os oito anos de idade,
eram encaminhados a turmas denominadas “Progressão”[1] , que tinham como principal
função a alfabetização em um prazo curto, para vencer a defasagem apresentada
por eles e inseri-los novamente no ensino regular.
Afeita a desafios, solicitei em minha
apresentação na escola, uma dessas turmas, pois gostaria de verificar como se
dava o trabalho com elas, que, sabia, era totalmente diferente do convencional,
uma vez que a forma de atuar da professora deveria ser calcada em jogos,
desafios, dramatizações e projetos, buscando o desenvolvimento
intelecto-cognitivo dos sujeitos e, principalmente, sua inserção no mundo
letrado.
Ainda com uma visão retrógrada, ao
chegar na sala de aula choquei-me com o fato de haver alunos ali que já
freqüentavam a escola há mais de 6/7 anos e que não haviam assimilado nem mesmo
o alfabeto. Essa constatação levou-me a imaginar se de fato o ensino como era
ministrado antigamente não seria mais eficaz.
O que observei em sala de aula era que
muitos dos indivíduos já haviam perdido o desejo de aprender e não entendiam o
que faziam no colégio já que a vida lá fora era muito mais pujante e, portanto,
desafiadora. As atividades apresentadas pela escola não lhes diziam nada, não
lhes serviam para enfrentar o seu mundo (neste caso, uma favela com alto grau
de violência, tanto dos marginais quando das autoridades). Os alunos fitavam-me
com olhares vazios ou provocadores, mandando-me mensagens que falavam de sua
falta de interesse no que a escola poderia lhes proporcionar, de suas dúvidas
sobre que alimentos para o intelecto ela lhes estava ofertando.
Essa alimentação seria, na compreensão
piagetiana, a assimilação, que é a tendência própria do sujeito de chegar-se ao
ambiente repetidas vezes e incorporar o que for possível (FLAVELL, 1992).
Continua o autor
Na
linguagem expressiva de Piaget, o organismo precisa simplesmente ‘alimentar’
seus esquemas cognitivos, incorporando repetidamente os ‘alimentos’ da
realidade, incorporando os ‘nutrientes’ ambientais que o sustentam.[2]
Fernández (1991) também fala em
“alimentação” quando compara o sujeito que apresenta sintoma-problema de
aprendizagem ao anoréxico e o sujeito que apresenta transtornos de aprendizagem
reativos ao desnutrido.
Segundo a autora, o primeiro tipo é
aquele que tem a possibilidade de aprender, mas não tem a vontade “por desejos de
ordens inconscientes”, sendo como uma pessoa que apesar de ter comida, não
come. Já o segundo tipo tem vontade de aprender e não aprende, por questões
externas a si, sendo, então, comparado àquela pessoa que tem o desejo de comer,
mas não tem a comida.
Assim
como em todas as classes sociais pode aparecer a anorexia, em todas as
situações sócio-educativas pode aparecer o problema de aprendizagem-sintoma.[3]
Neste caso, continuando a linguagem metafórica de
Fernandez, posso dizer que meus alunos eram cognitivamente anoréxicos, porque
tinham a comida (o ensino que eu tentava fornecer), mas não tinham vontade de
comê-la, talvez porque a “comida” oferecida por mim, não fosse apetitosa.
Buscando
atualizações e formação continuada, tentei dar cabo às minhas inquietações.
Sendo assim graduei-me em Pedagogia e especializei-me em Psicopedagogia e
em Educação e Reeducação Psicomotora, o que me possibilitou entender o
ser complexo que tinha que “educar”, não no sentido instrucional, mas no
sentido amplo que deve nortear toda a práxis pedagógica.
[1]
Turma intermediária entre o
terceiro ano do ciclo (antiga 2ª série) e a 3ª série destinada a receber alunos
que não têm condições de freqüentar esta última, mas que já não têm mais idade
para serem inseridos no 1 º ciclo (até os 8 anos).
[2] FLAVELL, John H. A psicologia do desenvolvimento de
Piaget. Trad. Maria Helena Souza Patto. São Paulo: Pioneira, 1992.
[3] FERNÁNDEZ, Alícia A inteligência aprisionada:
Abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. Trad. Iara
Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
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