segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Eu, professora


No transcorrer dos anos em que atuei como professora das séries iniciais do Ensino Fundamental pude observar mudanças nas concepções didático-pedagógicas do ensino.
Na década de 70, quando comecei a lecionar em escolas públicas no Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense (Nilópolis), o ensino predominante pautava-se sobre uma base tradicional, na qual os alunos tinham que decorar a tabuada, os verbos, os substantivos, os adjetivos, etc. É claro que para nós, professoras, a situação era confortável: se o aluno não aprendesse o problema era dele e não nosso, visto que “ensinávamos”, independente do fato de ter havido ou não aprendizado.
Insatisfeita com o magistério, abandonei-o, ainda na década de 70, tomando outros rumos profissionais, até me ver de volta em 2001, quando constatei uma grande mudança nos rumos da educação. Agora, a prefeitura do Rio e muitas outras, conforme constatei mais tarde, adotara o ensino através de ciclos de aprendizagem, baseados na idade cronológica do educando e de acordo com os estágios piagetianos e wallonianos. Os alunos que não lograssem êxito no processo de alfabetização até os oito anos de idade, eram encaminhados a turmas denominadas “Progressão”[1] , que tinham como principal função a alfabetização em um prazo curto, para vencer a defasagem apresentada por eles e inseri-los novamente no ensino regular.
Afeita a desafios, solicitei em minha apresentação na escola, uma dessas turmas, pois gostaria de verificar como se dava o trabalho com elas, que, sabia, era totalmente diferente do convencional, uma vez que a forma de atuar da professora deveria ser calcada em jogos, desafios, dramatizações e projetos, buscando o desenvolvimento intelecto-cognitivo dos sujeitos e, principalmente, sua inserção no mundo letrado.
Ainda com uma visão retrógrada, ao chegar na sala de aula choquei-me com o fato de haver alunos ali que já freqüentavam a escola há mais de 6/7 anos e que não haviam assimilado nem mesmo o alfabeto. Essa constatação levou-me a imaginar se de fato o ensino como era ministrado antigamente não seria mais eficaz.
O que observei em sala de aula era que muitos dos indivíduos já haviam perdido o desejo de aprender e não entendiam o que faziam no colégio já que a vida lá fora era muito mais pujante e, portanto, desafiadora. As atividades apresentadas pela escola não lhes diziam nada, não lhes serviam para enfrentar o seu mundo (neste caso, uma favela com alto grau de violência, tanto dos marginais quando das autoridades). Os alunos fitavam-me com olhares vazios ou provocadores, mandando-me mensagens que falavam de sua falta de interesse no que a escola poderia lhes proporcionar, de suas dúvidas sobre que alimentos para o intelecto ela lhes estava ofertando.
Essa alimentação seria, na compreensão piagetiana, a assimilação, que é a tendência própria do sujeito de chegar-se ao ambiente repetidas vezes e incorporar o que for possível (FLAVELL, 1992). Continua o autor
Na linguagem expressiva de Piaget, o organismo precisa simplesmente ‘alimentar’ seus esquemas cognitivos, incorporando repetidamente os ‘alimentos’ da realidade, incorporando os ‘nutrientes’ ambientais que o sustentam.[2]
Fernández (1991) também fala em “alimentação” quando compara o sujeito que apresenta sintoma-problema de aprendizagem ao anoréxico e o sujeito que apresenta transtornos de aprendizagem reativos ao desnutrido.
Segundo a autora, o primeiro tipo é aquele que tem a possibilidade de aprender, mas não tem a vontade “por desejos de ordens inconscientes”, sendo como uma pessoa que apesar de ter comida, não come. Já o segundo tipo tem vontade de aprender e não aprende, por questões externas a si, sendo, então, comparado àquela pessoa que tem o desejo de comer, mas não tem a comida.
Assim como em todas as classes sociais pode aparecer a anorexia, em todas as situações sócio-educativas pode aparecer o problema de aprendizagem-sintoma.[3] 
Neste caso, continuando a linguagem metafórica de Fernandez, posso dizer que meus alunos eram cognitivamente anoréxicos, porque tinham a comida (o ensino que eu tentava fornecer), mas não tinham vontade de comê-la, talvez porque a “comida” oferecida por mim, não fosse apetitosa.
Buscando atualizações e formação continuada, tentei dar cabo às minhas inquietações. Sendo assim graduei-me em Pedagogia e especializei-me em Psicopedagogia e em Educação e Reeducação Psicomotora, o que me possibilitou entender o ser complexo que tinha que “educar”, não no sentido instrucional, mas no sentido amplo que deve nortear toda a práxis pedagógica.



[1] Turma intermediária entre o terceiro ano do ciclo (antiga 2ª série) e a 3ª série destinada a receber alunos que não têm condições de freqüentar esta última, mas que já não têm mais idade para serem inseridos no 1 º ciclo (até os 8 anos).

[2] FLAVELL, John H. A psicologia do desenvolvimento de Piaget. Trad. Maria Helena Souza Patto. São Paulo: Pioneira, 1992.
[3] FERNÁNDEZ, Alícia A inteligência aprisionada: Abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. Trad. Iara Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

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