quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sou preta, e daí?



Farei uma revelação agora: eu sou preta. Não, não sou negra como quase todo mundo se declara hoje em dia, mesmo quem tem a pele clara e o cabelo “bom”. Aliás, nunca entendi essa história de cabelo bom. O meu nunca agrediu ninguém, nunca matou, nunca roubou, dá o maior lucro pras cabeleireiras e é considerado ruim. Imagina só, um cabelo responsável pelo aumento do PIB e pelo maior número de empregos, ser chamado de ruim. Bem deixa pra lá porque não estou escrevendo por isso.
O meu problema é outro, ou melhor, é o olhar dos outros sobre mim. Tenho mais de sessenta anos de pretura e ainda me incomodo com a maneira como sou tratada em alguns lugares. Hoje mesmo estava no hortifruti, paguei uma tortinha no caixa, me dirigi ao balcão, pedi a torta ao rapaz que estava ajeitando a placa da tortinha que eu queria, ele se voltou para um senhor branco que chegou depois de mim, perguntou o que o sujeito desejava e o atendeu. Então, veio uma mocinha e perguntou ao mesmo senhor se já havia sido atendido, e quanto a mim? Será que estava usando a capa da invisibilidade e não havia me dado conta? Só após atender o senhor, o rapaz veio me perguntar o que eu queria. Pedi. Ele me mandou tirar a fichinha (essa nossa mania de colocar tudo no diminutivo, achando que é mais carinhoso) no caixa, informei-lhe que a tortinha já estava paga e mostrei-lhe o cupom, afinal, quem vai acreditar numa preta velha?
Aliás, sou vítima nesse hortifruti. Certa vez um funcionário me atropelou com um daqueles carros de carregar mercadoria, pesado pra caramba, pediu desculpa, como se na verdade a culpa fosse minha por não perceber que ele vinha atrás de mim, e seguiu o seu caminho. Nem me perguntou se eu havia me machucado. Claro que eu estava machucada, além da dor quase insuportável, meu pé sangrava pra dedéu. Dirigi-me à caixa e, depois que paguei, perguntei-lhe se ela me arranjaria um band-aid para colocar na ferida, ela chamou o gerente que disse logo que não tinham.
Aí, eu fiz aquela cara de idiota e falei:
- Pois é, o rapaz da loja me atropelou com o carrinho. Bem, quase que imediatamente surgiu o band-aid e um pedido de desculpas talvez mais sincero, duvido, mas o medo de um processo...
De outra vez, fui comprar um salpicão na mesma loja, o rapaz que deveria me atender estava cortando algum frio, sem olhar para o balcão. Eu o chamei diversas vezes, juro, só não gritei porque sou muito educada. Perguntei ao rapaz ao lado se ele poderia me atender. Claro que não, só o rapaz ocupado poderia, no entanto ele não se mexeu para chamar o tal rapaz. Muito irritada, procurei o responsável pela loja e ele me disse que isso não me aconteceria mais, sei não. Não posso só falar desse hortifruti, que continuo frequentando apesar de toda humilhação que me impõe.
Uma vez na Viena do Rio Sul, havia um senhor e um meninote na minha frente aguardando mesa, depois, vínhamos eu, mais uma adulta e 4 adolescentes, ou seja, seis pessoas. A mocinha perguntou ao senhor quantos lugares ele queria, passou por mim e perguntou à família atrás da gente a mesma coisa. Quando ela voltou, eu lhe perguntei se preto era invisível. Ela me disse:
-Desculpe, pensei que vocês estivessem com eles. Ele pediu cinco lugares. 
Então eu disse:
- Alguém andou faltando às aulas de matemática (porque ela tinha achado que dois mais seis daria cinco).
Ela fez aquela cara de não entendi e não gostei, registrou o meu pedido de mesa e se retirou. Minha cunhada cismou que tínhamos que reclamar na gerência e eu deixei pra lá, sei que não adianta nada mesmo. Quem vai se importar com um bando de neguinhos? Mesmo assim, ironicamente perguntei ao gerente se ele estava me vendo. Sem entender nada ele respondeu que sim e eu lhe disse:
- Que bom que só a sua funcionária não enxerga crioulos.
Ficou tudo por isso mesmo, até a hora em que pedimos a taça Viena, que veio sem a salada de frutas. A garçonete me falou que tínhamos que ter reclamado antes de comer. Como, se não dá pra ver se tem frutas com o sorvete em volta? Só havia banana e uva e o buffet estava cheio de frutas, então nem desculpas tinham, a não ser o fato de achar que aquela gente preta nunca tinha comido uma taça Viena e que, portanto, não saberia como era feita.
Bem, eu poderia ficar aqui durante horas falando de todo o preconceito que sofro ou sofri e até das pessoas que me acham uma neguinha metida. Uma neguinha que passa por tudo o que passo tem que ser metida mesmo, se eu me rebaixar, aí é que montam em cima. Reclamo mesmo.
Nunca processei, porque nesse país se alguém me chamar de macaca (como já fizeram várias vezes), o delegado vai registrar como injúria racial e não como racismo e não vou perder meu tempo com gente dessa laia, afinal, um tipo de gente que faz isso é muito mais infeliz do que eu, porque se pensa superior, mas, na verdade, é um nada que tem as entranhas iguais às minhas e se “acha” porque tem a pele mais clarinha.

Pelo menos eu tenho uma vantagem: já nasci com filtro solar, eles não.

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